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Alfredo Roque Gameiro: de menino de Minde a “Carola” da aguarela

Considerado o aguarelista português de referência, Alfredo Roque Gameiro mudou a face da aguarela em Portugal. Exímio desenhador, com conhecimentos e práticas na área da litografia, professor em varias instituições nacionais, com presença frequente em varios certames de arte em Portugal, Roque Gameiro fará, também, um assinalável percurso internacional.

Roque Gameiro levará consigo o nome de Portugal, pela Europa, pelo mundo.



Lisboa, 13 de maio de 1934. Na noite de 13 de maio de 1934, no salão nobre da Câmara Municipal de Lisboa, Mestre Roque Gameiro foi agraciado com a medalha de ouro da cidade (Anuário CML,1934). Foi uma homenagem de vida; contava já 70 anos de idade. Mais de 60 anos antes, era um menino de província, nascido em Minde, lá onde a serra se afunda numa depressão fechada, formando uma concha para receber as águas das chuvas e as águas subterrâneas.

Nessa época, relatanos a família que o ex-seminarista Carvalho, seu professor, dizia ao pai que o pequeno era pouco aplicado e só queria fazer bonecos! Em poucas linhas vamos traçar o percurso deste menino que nasceu à luz de uma velha candeia de azeite, filho de Manuel Rey Roque Gameiro e Ana de Jesus e Silva e a quem deram o nome de Alfredo Roque Gameiro.

Para Fernando Pampelona, Roque Gameiro conferiu pergaminhos de nobreza à aguarela em Portugal. Qual é a originalidade deste percurso?

 José Pedro, seu neto, refere: “a figura de RG está muito marcada pelas suas origens, formação e convicções”. Aos 10 anos rumou até Lisboa, sempre com o Mar no horizonte, influenciado provavelmente por seu pai, que tinha sido oficial de Marinha. No entanto, demonstrou, ao longo da vida, um forte apego a Minde – expresso nas Obras de referência que o projetaram além-fronteiras e na ligação que sempre manteve com a família. Esta ligação é bem evidente ao estudarmos a correspondência epistolar onde, muitas vezes, se evidenciam preocupações e ajudas no progresso de Minde. A marca rural das suas origens reflete-se, não só nas temáticas ligadas ao mundo rural, mas também na escolha da Venteira (Amadora) para viver.
Em Lisboa, Roque Gameiro iniciou um fulgurante percurso ligado às artes gráficas. Desde menino colaborou na litografia Castro e Irmão e logo a seguir fez carreira na empresa do seu “mano Justino”. Como aprendiz de litógrafo, passou à pedra obras de grandes artistas e por entre tintas e traços litográficos descobriu o mundo da grande escala, das tintas de água, da cor. Esta realidade proporcionou-lhe confiança suficiente para fazer ilustração “O desenho é a base de qualquer obra", dirá. De 1884 a 1887, Roque Gameiro esteve em Leipzig como bolseiro do Estado Português; regressou para ser diretor artístico da Nacional Editora, propriedade do seu irmão. Foi um dos fundadores da Escola de Artes António Arroio e leccionou na Machado Castro e na Rodrigues Sampaio. Como ilustrador, Roque Gameiro marcou presença assídua na imprensa, numa época de revolução tecnológica na impressão. Os grandes jornais do país (vide blogue “Tribo dos pincéis”), consagraram-lhe espaços; nas suas entrevistas refere a importância de “educar o olhar e afinar a nossa visão estética do mundo”, ensinamentos que passou para os seus filhos, aliás, todos artistas. “Naquela casa era tão natural desenhar ou pintar como comer ou brincar", salienta a sua neta Ana de Jesus.   
O talento inato e o percurso que temos vindo a seguir, refletem-se no domínio técnico ímpar, ao nível da aguarela. O processo criativo de Roque Gameiro é bem específico: uma base de desenho, um aguarelar muitas vezes quase a seco, conseguindo-o em pequenas pinceladas, em pequenas manchas cirurgicamente dirigidas para obter o máximo de efeito, rigorosamente controlado, sem nunca recorrer a efeitos de “escorrência” tão comuns em aguarelistas. Tinha tendência para a explicação plástica de pormenor de análise visual, em prejuízo da largura de síntese que ele mesmo sentia como uma limitação e que procurava contrariar e até disciplinar, revela-nos José Pedro. 

Origens, talento, formação e sensibilidades do artista, refletem-se nas diferentes temáticas do seu trabalho e encontramo-las: no “terrunho” de pendor panteísta, no marinhista de referência ao nível da aguarela; no apaixonado por Lisboa antiga para a qual realizou uma obra de evocação que dedicou, sintomáticamente, “a meus netos”; no artista que fez de Portugal o seu atelier; no retratista que atingiu no retrato um dos momentos mais altos da pintura portuguesa, como é “Retrato de minha mãe”. Toda esta produção traduzir-se-á numa carreira nacional e internacional largamente premiada.

Para Roque Gameiro, a sua Obra foi uma celebração da natureza, das pessoas, da História “que a sua arte não transforma ou transfigura mas também não se limita a reproduzir: comtempla-as e saboreia-as amorosamente”, destaca o seu referido neto .

Quando analisamos a Obra do Mestre,a sua produção de teor histórico, os seus trabalhos de índole republicana; quando verificamos que a sua arte não se filia em nenhuma escola, moda ou estéticas impostas, sendo antes o resultado genuíno de alguém que definiu com clareza e autonomia o seu caminho; quando descobrimos que Roque Gameiro, pai de família, artista e cidadão que educou os filhos para a liberdade numa época onde tal realidade era tão rara, podemos afirmar que o espirito de independência foi um traço estruturante na sua vida e Obra. Raquel Henriques da Silva destaca: “ARG registou incansavelmente, o mar, as paisagens, as atividades das gentes, compondo uma narrativa pictórica naturalista que os valores do “portuguesismo” consolidam”.

O seu legado ajuda-nos a saber quem somos como portugueses e a entender a arte nacional, como defendeu Roque Gameiro, naquela noite de homenagem, em Lisboa.

 





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